RIQUEZAS NATURAIS

Toma frente junto ao desenvolvimento econômico da sociedade capitalista, um debate ambiental, uma espécie de capitalismo verde que defende e cria diretrizes para construir um desenvolvimento sustentável. Esse termo, desenvolvimento sustentável foi elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criada pela ONU, apresentado em 1987 no Relatório Brundtland, e hoje está presente desde a página da WWF até em um espaço dedicado ao tema no site do Itau-Unibanco. É uma definição política ampla e flexível, que significa pouco ou quase nada de mudanças estruturais da sociedade: “é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro.”.

Em nosso entendimento, para falar da questão ambiental é necessário compreender como funciona o capitalismo enquanto modelo produtivo e social, de que forma o consumismo é estimulado e como as riquezas naturais são transformadas em mercadoria a partir da criação da lógica da escassez.

O modelo de sociedade capitalista que vivemos está baseado na exploração da força de trabalho e na apropriação das riquezas naturais, através do constante desenvolvimento de tecnologias que permitem aumentar ambas as explorações. O capital busca se instalar onde a força de trabalho tem valor menor, ou seja, onde é possível uma maior exploração do trabalho. Um exemplo de como isso acontece, são as multinacionais que fecham suas unidades em países onde os trabalhadores conseguem garantir seus direitos e passam a se estabelecer em países onde a força de trabalho é mais barata, menos organizada e consequentemente mais explorada.

A escassez e a mercantilização da natureza podem ser descritas como um processo. Primeiramente busca-se criar um clima de escassez, que pode ser da água, dos alimentos, de ar limpo, de minérios, de florestas. Esse clima tem um discurso ideológico por trás, pois não é uma falta em absoluto e sim uma falta em relação às próprias necessidades criadas pelo sistema capitalista. Cria-se assim, a necessidade de consumo e a conseqüente necessidade de aumento da produção. A idéia de que certo recurso é escasso leva as pessoas a desejarem mais esse recurso, levando a um aumento de sua demanda e consumo, gerando um alerta para a conservação, motivado pelo medo de ficar sem certo recurso que é direito de todos.

Na busca da conservação dos recursos, justificado pela idéia da escassez, determina-se um preço, ou seja, um valor para a riqueza natural, para que ela não se esgote e com isso seja teoricamente limitado o seu consumo (mesmo que a produção continue aumentando para acompanhar a demanda crescente). Essa noção de escassez que busca criar um consenso de que a escassez é um problema de falta de recurso e não de desigualdade na produção e distribuição, cria o discurso de que a escassez é de todos e exige o sacrifício de todos (normalmente de uma classe em detrimento da outra) e que o “mercado” é capaz de resolver os problemas, propondo soluções como, por exemplo, a privatização das fontes de água potável pela Nestlé e pela Coca-cola. Junto a essa noção de escassez podemos destacar os chamados desastres ambientais, onde mais uma vez é gerado um mercado em torno de questões ambientais, como é o caso do lixo, da poluição das águas e do ar, desmatamento e aquecimento global, todos como conseqüências do modelo capitalista adotado no mundo. A ABEEF entende que a crise ambiental não é uma crise por si só, ela é conseqüência do nosso modelo de consumo que é fundamentado no sistema produtivo. Ou seja, é uma crise da sociedade capitalista, portanto deve ser discutido juntamente com as formas de organização da sociedade e do trabalho. O Brasil na divisão internacional do trabalho tem o papel de produzir commodities, retirando matéria-prima, nossos recursos naturais e exportandoos, deixando na maioria dos casos apenas a pior qualidade de produtos para sua população. Destaca-se essa situação na exportação de commodities agrícolas e florestais como a soja e a celulose, enviadas ao exterior sem benefícios significativos, ou seja, sem agregação de valor.

Neste contexto vê-se a necessidade de identificar quais as formas de dominação que se estabelecem hoje na sociedade, qual o papel que é proposto pelo capital para o Engenheiro Florestal e a partir desse entendimento se posicionar contra esse modelo. Desta forma, identificamos alguns pontos de atuação central do capital na apropriação das riquezas naturais, que são vistas como recursos naturais pela concepção capitalista, pois são interpretadas unicamente como uma forma de obtenção de lucro.

  • Mineração – O capital realiza uma disputa por bases naturais que sejam vantajosas, buscando controlar os territórios e conseqüentemente as riquezas contidas nele. Como exemplo, a VALE controla 90% dos minerais brasileiros, contrariando a constituição, pois tinha o monopólio das concessões de mineração quando era estatal e o manteve ao ser privatizada. A mineração interfere na quantidade e qualidade de água, qualidade do ar, processos de degradação do solo, fazendo com que esses processos influenciem todo o coletivo.
  • Água – De forma geral, observa-se um processo de privatização da água, seja pela construção de usinas hidrelétricas, pela privatização das empresas estatais de saneamento e pelo pagamento de uso da água, controladas por empresas como Coca-cola e Nestlé, que visam obter o controle dos cursos e fontes de água.
  • Terras – No Brasil desde a lei de terras de 1850, a terra virou mercadoria, sendo uma mercadoria fictícia, a qual não é produto do trabalho humano. Hoje esse processo de mercantilização continua através da internacionalização da terra, onde grandes empresas multinacionais se deslocam para o Brasil e compram grandes quantidades de terra. Temos a atuação do capital na compra cada vez maior de terras desde áreas de florestas, áreas destinadas à produção agrícola e florestal e áreas para possibilitar a construção de barragens. Junto com a internacionalização da terra, há o fomento florestal, o qual é uma tática das transnacionais do setor florestal que diminui os custos de aquisição de terras. Porém, recai sobre o pequeno agricultor o custo de depreciação da terra, visto que os tocos remanescentes de árvores inviabilizam os plantios posteriores.
  • Matriz Energética – Também é importante analisar nossa matriz energética e como exploramos nossas riquezas naturais para suprir nossas demandas crescentes de energia. Há projeções que dizem que para o crescimento econômico dos próximos 20 anos, a demanda de energia será aumentada em 40% (todas as demandas irão crescer). Para a produção de energia, 1/3 do combustível disponível já foi queimado e o que ainda está disponível necessita de muita tecnologia para ser explorado, sendo que os gastos energéticos e econômicos para isso podem já não compensar. Temos o paradigma da matriz energética criada, como iremos trabalhar com isso? Esse é um desafio também colocado aos Engenheiros Florestais que lidam com parte desses recursos. o Hidrelétricas – O debate que se deve fazer é entre para que essa energia e para quem é essa energia, pois grande parte dessas obras é pra fornecer energia pra grandes indústrias. Apenas 3 empresas consomem 16% de toda a energia do Brasil, o equivalente ao que consome toda a população brasileira. Sendo que as empresas que mais consomem energia são as que menos geram empregos, pois a utilização de tecnologias com alta demanda energética sinaliza dependência de menor quantidade de força de trabalho. Elas são também as que mais causam impacto ambiental, por seu tipo de atividade. Além disso, pagam a menor tarifa do mercado, pois compram diretamente das empresas geradoras de energia. Entendemos que o governo brasileiro protege e possibilita a perpetuação desse modelo. Através do BNDES financia até 85% das barragens com dinheiro público. As empresas pagam o empréstimo rapidamente com a renda das atividades e logo passam a obter lucros. O estado ainda protege estas corporações impedindo as mobilizações populares através das forças armadas e garantindo infraestrutura de transporte que permita o saqueio dos recursos naturais. As barragens estão claramente associadas ao agronegócio e é comum estarem cercadas de monocultivos de espécies que consomem alta quantidade de água, como o eucalipto. o Petróleo – As guerras também são realizadas para manter as taxas de lucros, reaquecendo o mercado da indústria bélica. Observa-se também o forte interesse pelos recursos naturais contidos no território nas nações atacadas, como o petróleo no Iraque, o que claramente está por trás das investidas armadas alardeadas pela mídia como o combate ao terrorismo.
  • Apropriação da biodiversidade: empresas do agronegócio, indústria farmacêutica, cosméticos, entre outros apropriam-se de conhecimentos tradicionais e passam a lucrar com estes, sem que haja um retorno econômico e social para estas comunidades que muitas vezes ainda tem seu trabalho explorado no extrativismo mal-remunerado dessas matérias-primas.

É importante para o estudante entender os conflitos e problemas vividos na sua região para poder se aliar aos movimentos sociais e às organizações populares pela transformação social, na luta contra as forças opressoras, sabendo identificar como estas se caracterizam ao seu redor e contribuindo na elaboração estratégica das ações de enfrentamento.

A ABEEF entende que a superação da apropriação das riquezas naturais e a construção de uma nova relação do ser humano com o ambiente, que seja mais equilibrada, não vêm apenas do esforço individual, mas principalmente da organização social. A nossa tarefa é de lutar e colaborar na construção, junto com outros setores da classe trabalhadora por um projeto que seja capaz de atingir as reais necessidades da população brasileira baseado na compreensão completa da realidade vigente. Além disso, devemos encarar a luta de classes e fazer o enfrentamento direto às empresas que exploram as riquezas naturais de forma indiscriminada. Ao mesmo tempo devemos despertar a consciência da sociedade, tendo clareza de quem são os inimigos e buscando unificar as lutas para acumular forças.

É necessário aprofundarmos o debate do ponto de vista teórico debatendo a ecologia política e a economia ecológica, para contribuirmos no debate ambiental da esquerda. Precisamos debater a questão dos créditos de carbono, REDD, MDL, pagamento por serviços ambientais e educação ambiental, para entender o que são e qual o verdadeiro interesse do capital em relação a eles, incluindo essas pautas nos trabalhos elaborados pelos coletivos NTA e NCP.

Devemos compreender a importância e incentivar os debates sobre a privatização da água em nossas escolas, ressaltando o debate sobre quem são os reais donos da água, e ficar atentos aos ataques à legislação que possibilitem transformar a água e a energia em mercadoria para o grande capital.

Além disso, devemos estar atentos aos debates da Rio+20 que será realizada em 2012 no Brasil. A Rio+20, um evento promovido pela ONU onde estarão reunidos líderes de Estado, organizações ambientalistas mais distante dos movimentos sociais, será um espaço de negociações do capitalismo verde.

A ABEEF, enquanto movimento estudantil que busca uma formação crítica dos engenheiros florestais na perspectiva da redução das contradições colocadas para o meio ambiente, deve trazer como uma de suas pautas para o próximo período o debate sobre a Rio+20, acumulando para a organização e contribuindo com a construção de espaços de mobilização e enfrentamento juntamente com organizações populares do campo e da cidade.

Devemos debater, dentro e fora da universidade, propostas para uma Engenharia Florestal que paute uma relação justa e responsável com os povos tradicionais, os trabalhadores e as trabalhadoras camponeses e urbanos, e com a natureza. Neste sentido, fortalecer a articulação com a Assembléia Popular, a Via Campesina e outros movimentos sociais populares, para contribuir nas lutas, ter referências da realidade como um todo e transmitir as indignações vividas pelo próprio coletivo.

Sobre matriz energética, devemos intensificar os debates e principalmente as lutas que envolvem a construção da Usina de Belo Monte, que vem trazendo impactos ambientais e acima de tudo, danos às populações tradicionais e à toda sociedade que vive próximo ao Rio Xingu.